Tudo ou nada. Ou paramos o totalitarismo ou ele nos engolirá

O Brasil tem um sério problema de miopia. Aprendemos e continuamos repetindo histórias de carochinha. O “país-continente” acredita que os três “povos” (sic) que o formaram em harmonia vão eventualmente chegar a um futuro maravilhoso, à redenção, por mágica, de seus sérios problemas.

Enquanto isso, outros países, com maior senso de realidade, têm se saído melhor. Nossa vizinha Argentina está prestes a sair do confinamento forçado com segurança, graças a uma política séria e articulada do governo comandado pelo recém-empossado Alberto Fernández, com menos de 1000 mortes no total. Enquanto isso, o Brasil caminha para o caos, com cerca de 600 mortes num só dia (por enquanto). E sem prazo para terminar, porque a sociedade está dividida e desnorteada por um sociopata que até agora, só atrapalhou, e em nada ajudou para atenuar este problema.

Sem refletir, deixamos este senhor entrar no poder, no Governo Federal. Um homem que, após ter sido expulso das forças armadas, por 28 anos foi deputado federal sem nada fazer pelo país. Olhássemos sua vida pregressa, veríamos que não passa de um arruaceiro, que não sabe nem o nome do Palácio do Planalto; nem sabe quais são as atribuições da Polícia Federal (vide últimas entrevistas à rádio e à TV). Mas acreditamos que ele escolheria gente “de bem”, porque seria bem intencionado. Muitos jornais instavam a uma mudança de postura, que viria com o irremediável aprendizado da vivência com a máquina pública. Tudo uma série de bobagens.

Ele não vai mudar. Daqui a coisa só tende a piorar.  A série de atos fascistas em meio à maior pandemia da história só demonstra a sede de poder, o egoísmo e a desfaçatez de alguém que saiu de um filme de terror.  Ou as autoridades e cada cidadão brasileiro, da forma como puder, fazem o que for possível para tirar esse déspota do poder, ou cairemos numa ditadura muito pior que a de 1964-1985.

Imagine este homem no poder em uma ditadura. O que será o Brasil? Eu vejo uma ditadura bananeira, típica da América Central, porém em proporções muito piores. Em que o presidente e seus asseclas têm poder sobre tudo e todos; sem liberdade de expressão; sem hospitais,  escolas, e universidades públicos. Nas escolas, serão usados  livros censurados, numa história revisionista, numa ciência fajuta da terra plana… e ai do professor e de quem quiser questionar. A corrupção será muito pior, porém sem o mínimo de transparência, e as igrejas ditas “evangélicas” terão todo o poder para sugar dinheiro de suas vítimas. Um país isolado e ridicularizado internacionalmente.  Já estamos vivendo uma prévia de tudo isto.

Em pouco mais de 13 meses, estamos vivendo um circo diário de hipocrisia, justo daqueles que acusavam a esquerda de todos os males do país. Em 13 anos, os governos petistas não fizeram nem 10% dos ataques à democracia que já vimos neste governo. Sim, “mito” sempre significou mentira, invenção. E não adianta segurar a bandeira brasileira se ela está subjugada à americana. Sim, é traição à pátria.

Sobre a “invisibilidade” do neofascismo

Os acontecimentos da semana passada envolvendo o Sr. Alvim e o seu vídeo inspirado no regime nazista, seguidos de sua demissão, me trouxeram à tona a questão de como o neofascismo não só gosta de ser discreto, mas precisa disso para sobreviver. A postura de Alvim não é novidade, ela é o próprio centro da ideologia do atual governo. Porém a “ideologia” não pode ser proclamada. A “ingenuidade” de Alvim foi não perceber este funcionamento básico do neofascismo, que o separa claramente dos fascismos tradicionais. Antes de tudo, acusar o outro de “postura ideológica”, sem apresentar a sua, já é parte da invisibilização. É esse, aliás, o conteúdo do primeiro pronunciamento de Regina Duarte, “a viúva Porcina” da cultura, sucessora de Alvim no cargo de carrasca da cultura.

A invisibilidade começa na simbologia. Diferentemente do fascismo e nazismo tradicionais, que tinham seus símbolos próprios, o neofascismo surrupia os símbolos nacionais como se fossem seus. Imagine a seguinte situação: você vai à academia ou ao shopping e se depara com uma pessoa usando a camisa da seleção brasileira. Você não pode interpelá-lo porque usa a camisa do seu país! Nem mesmo clareza de ele/a está usando a camisa pela adesão a tais ideias você tem. O que fazer? Deixar passar. E, por via das dúvidas, mais um fez “campanha” impunemente…

O segundo pilar da invisibilidade é a mentira. Ela suga toda a energia daqueles que são suas vítimas, enquanto os detratores vociferam blasfêmias. Até que a verdade seja restabelecida, inventam outra, e assim por diante. Já se sabe que todas as últimas investidas do governo não foram para “combater a corrupção”, e sim mirando inimigos do regime: as universidades, os artistas… até a investida contra o DPVAT surgiu porque queriam envolver pessoas ligadas ao PSL e ao STF. No âmbito da educação, alguns boatos foram o dito “kit gay”, nunca distribuído em escolas,ainda em época de campanha. E durante o governo, a difamação a professores e estudantes universitários, por meio da divulgação de montagens de fotos, algumas delas retiradas de contexto. Porque digo que a mentira é “invisível”? Elas são transmitidas pelas fake news nas redes sociais; ninguém sabe a fonte da mentira, porém pelo seu impacto emocional elas se propagam com grande rapidez. Se você não está “vacinado” e bem informado, talvez você acredite também e propagará essa mentira, tornando-se parte de um gigantesca rede de desinformação. Depois que a mentira já se espalhou, ela se torna objeto de referência por alguns membros do governo, como o próprio ministro da educação, que apresentam a desinformação como se fato fosse.

O terceiro pilar, feito em conjugação com o anterior, envolve a adoção de medidas administrativas e legais para controlar mais servidores públicos, retirar o financiamento de áreas que não são de “interesse” ao regime, controlar a expressão, impondo a censura às artes. Tudo isso de maneira sorrateira, enquanto a opinião pública “digere” o último ultraje, pronunciamento boçal, sem alarde. No dia 31/12/2019, por exemplo, inúmeras medidas nesse sentido foram promulgadas no âmbito do governo, “no apagar das luzes”, quando estávamos todos pensando na roupa a usar nas festas de réveillon….

O quarto e derradeiro pilar da casa neofascista é a intimidação. Aliás, esta já começa com as fake news e o discurso de ódio. O silenciamento dos opositores também já contribui um pouco mais. Porém alguns pronunciamentos de autoridades dão a pincelada final. A ameaça de reedição de um AI-5, feita várias vezes no ano passado, como um comentário qualquer no meio de uma entrevista, uma “possibilidade”, coloca a opinião pública, em grande porcentagem descontente com o governo (Mais de 30% de avaliação ruim ou péssimo), em estado de entorpecimento e medo.

Porém uma oposição “macia” é a pior estratégia diante do neofascismo.

O lugar do ensino de gramática – Parte II

Discutimos a importância do ensino de gramática num post anterior, e como os métodos de ensino de língua materna têm progressivamente deixado de lado esse tópico em favor de outros (como o conhecimento dos gêneros textuais e da semântica, por exemplo). Nesta postagem dou continuidade (um tanto tardiamente) a essa discussão, observando a importância do estudo sistemático da gramática em diferentes níveis de ensino, como ferramenta de desenvolvimento do raciocínio.

No Brasil, sabemos que toda a educação tem privilegiado as ciências exatas. Isso é em parte consequência dos governos militares, que incorporaram a visão pragmática da educação no âmbito do capitalismo, como instrumento para treinamento de cidadãos com vistas a servirem como mão-de-obra para o mercado de trabalho. Ora, essa visão se acentua ainda mais agora, com um governo que tem claramente atacado as ciências humanas, julgando-as “inúteis” e, além disso, (não declaradamente, é claro) perigosas para a efetivação de seu projeto de poder, já que introduzem o pensamento crítico como elemento central na formação da pessoa humana. A gramática situa-se na convergência entre ciências exatas e humanas, e por isso continuam sendo esquecidas (apesar de não serem um alvo predileto, como o é a filosofia).

Estudos psicolinguísticos há muito apontaram o benefício de crianças estudarem música como auxílio para o desenvolvimento de habilidades matemáticas. Não é difícil entender a razão: a música é um sistema de linguagem (porém não de língua), uma vez que composto por elementos básicos (notas), uma série de operações que apresentam variantes (duração, ritmo, pausas) e regras para a combinação de tais elementos. Na língua (especialmente em seu aspecto gramatical) temos o mesmo: palavras, variantes e regras para seu ordenamento. A gramática é tão relevante para a consolidação do raciocínio quanto a matemática, porque ela repousa no aspecto lógico da linguagem.

Por que então a gramática vem sendo progressivamente colocada de escanteio no ensino brasileiro?

Primeiro, nosso ensino é por um lado extremamente centrado no aspecto normativo. O aspecto lógico não poderá ser trabalhado a partir de um estudo meramente normativo, pois este não está realmente interessado em explicar como a língua é, mas sim em impor uma determinada conduta linguística a seus falantes.

Segundo, nos últimos anos, o aspecto normativo cedeu lugar à visão discursiva (pelo menos em algumas escolas e métodos). Essa visão apregoa que todo texto só pode ser compreendido a partir de sua relação com outros textos, portanto situado em termos de contexto e cotexto. Nada mais justo, porém a gramática passou a ter um papel meramente figurativo, quando ela é a base para a construção do significado, sem o qual nenhum texto pode ser compreendido. Ou seja, a visão discursiva e a visão gramatical, que deveriam ser complementares, são apresentadas como antagônicas.

Terceiro, não há política pública que realmente valorize a gramática no ensino. Nas diretrizes do MEC, a gramática ocupou algum espaço, mas não há um conteúdo mínimo cobrado no ENEM. Isso se confronta com o que ocorre em outros países, em que gramática e raciocínio lógico são componentes cobrados para a entrada no ensino superior. Nos Estados Unidos, o SAT (Scholastic Aptitude Test) é um balizador, que deveria ser adaptado ao ENEM, com conhecimentos específicos sobre léxico e gramática acoplados à interpretação de texto.

Quarto, criou-se um círculo vicioso, por conta da precarização do ensino no país. A debandada de vocações das áreas de ensino faz com que os jovens que se dedicam ao curso de letras não estrjam dispostos a grandes sacrifícios. No entanto, dominar a gramática será uma tarefa dificultosa para a maioria desses estudantes, que não receberam uma base sobre a qual os professores universitários poderão trabalhar. Com isso, do desinteresse, não raro eles passam à rejeição dessa área de estudo, preferindo outras que lhes sejam mais “palatáveis”.

No meio a tudo isso, não incrivelmente a discussão sobre o ensino de gramática tem tomado força nas universidades. Porém essa discussão, se bem que relevante, será inócua se as bases do problema não forem atacadas.

Todos CONTRA a Educação?

Finda-se 2019. Não se pode dizer que é “cedo demais” para fazer avaliações sobre o atual (des)governo. Já testificamos todo o potencial de destruição que ele encerra. E uma das áreas em que isso é mais pavoroso é a Educação. (Sim, porque há outros em que situação se configura paralela, como o Meio Ambiente, a Cultura, as Relações Exteriores, e a Saúde.)

Neste ano, vimos ministros que parecem ter maior condicionamento como relações públicas ou bedéis, pois passam boa parte do seu tempo divulgando suas opiniões pessoais sobre os mais diversos assuntos (muitas vezes totalmente alheios à sua pasta) nas redes sociais; ou tentando regrar o comportamento de alunos e professores.  Em tudo isso, os dois ministros que estiveram à frente da pasta mais para atrapalhar do que para cuidar da educação.

 

 

 

 

 

 

 

 

A outra parte do que saiu nos holofotes este ano foram os ataques às universidades públicas. Como parte da estratégia de divulgação de “fake news” (nome mais eufemístico para mentiras) contra grupos julgados contrários ao governo, foram duas grandes ondas de ataques, que seriam alertas sobre uma propalada “imoralidade” geral nas universidades:

  • uma no primeiro semestre, voltado ao aspecto da “indecência”. Nesse momento, tratou-se de divulgação, via whatsapp, de material envolvendo montagens (com fotos com legendas “ilustrativas” de algumas das principais universidades públicas do país) em que se mostravam alunos nus ou semi-nus, em salas de aula ou em locais abertos; outro conjunto de fotos mostrava paredes pichadas.
  • outra no segundo semestre, específico sobre o uso de drogas. Dessa vez, os ataques foram oficiais; partiram do próprio ministro. E os divulgadores de fake news distribuíram o próprio pronunciamento do ministro como “prova” ou “evidência”. (Vide o vídeo do Deputado Alessando Molon em que coloca os pingos nos ‘is’ sobre tais inverdades.)

Entremeados entre esses eventos, encontram-se algumas notícias que demonstram alguma discussão sobre temas efetivamente relativos à educação. Sempre esses temas tiveram a ver com questões “ideológicas”, ou assim consideradas pelo governo: Paulo Freire (e muito especificamente seu método de alfabetização) e a chamada “ideologia de gênero”. Nesses casos, nota-se que a abordagem é a da destruição autocrática, sem construção. Isto é:

  1. os temas não são colocados em debate público;
  2. especialistas não são consultados sobre os temas;
  3. não se propõe nada para ficar no lugar.

 

 

Não é preciso ser especialista em educação para perceber onde tudo isso vai dar. É sabido que o cenário no País é muito ruim no que tange à Educação. A tendência é que isso venha a piorar. Temos no poder um grupo desarticulado, que não sabe elaborar políticas públicas. Seu interesse é disseminar o ódio para se perpetuar no poder. Se a população ainda por cima apoiar o governo de extrema direita em tais devaneios e disseminar fake news, o pouco que havia sido construído pode ser destruído de uma vez. Pois eu aprendi muito cedo que é fácil destruir, mas muito difícil construir algo.

 

O lugar do ensino de gramática

Desde os anos de 2000, o debate sobre o lugar do ensino de gramática ficou mais frequente na academia brasileira. Uma análise dos livros lançados pelo mercado editorial brasileiro em linguística demonstrarão isso. No entanto, o fracasso no aprendizado é o mesmo ou mais acirrado do que o que se encontrava antes, nessa área. Isso pode ser observado indiretamente pelo fraco desempenho dos alunos nos testes que avaliam interpretação de textos.

Em parte, o problema advém do papel cada vez mais marginal que a gramática foi tendo nos currículos, tanto no ensino básico quanto no superior. Primeiro, exigiu-se que os exercícios fossem colocados em contexto – a chamada “gramática pelo texto” – e os exercícios descontextualizados, demonizados. Depois essa tendência ganhou mais força com dois modismos – o ensino sobre o preconceito linguístico e o ensino a partir dos gêneros textuais.

Quando falo “modismo”, digo sem um valor pejorativo. Mas essas são mesmo ondas, que dominam o debate no meio acadêmico e que acabam se refletindo dos conteúdos repassados em sala de aula em diversos níveis. Eu realmente não sou contrário a essas tendências, mas sim ao abuso que tem sido feito ao aplicá-las. Abordar questões de preconceito (juntamente com variação e mudança linguística) pode sim ser conteúdo das aulas de língua portuguesa. Tratar dos diversos gêneros textuais também. Mas, não deixando de lado a velha gramática!!

O que ocorre é que os novos métodos pedagógicos têm um apelo que passa pelo prestígio que os professores têm em empregá-los – eles se sentem empoderados em saberem que dominam o que se considera “a crista da onda” da educação em língua materna. Junto com isso, os materiais didáticos progressivamente se pautam por esses métodos e discursos. Finalmente, eles via de regra incluem um passo-a-passo de como elaborar as aulas, o que é exatamente o que qualquer professor quer, de forma a simplificar sua tarefa. Isso, juntamente com a dificuldade que o aprendizado sobre gramática envolve, fez com que ela perdesse progressivamente o espaço que costumava ter.

Parece que a adoção prematura desses modismos também é parte de uma atitude típica dos povos “latinos”, aí incluídos os brasileiros. Gostamos de novidades, ficamos extremamente animados com novas promessas de resolução simples de nossos problemas; porém com isso esquecemos da tradição e que a educação pode e deve buscar novos caminhos, mas sem jogar fora o bebê com a ‘água do banho. Note que a gramática está presente desde sempre nos currículos da tradição ocidental, e quiçá mesmo de escolas no Oriente. Além disso, vale a pena recuperar o pensamento a seguir:

“We study grammar because a knowledge of sentence structure is an aid in the interpretation of literature; because continual dealing with sentences influences the student to form better sentences in his own composition; and because grammar is the best subject in our course of study for the development of reasoning power.”
(William Frank Webster, The Teaching of English Grammar. Houghton, 1905)
Tradução: “Estudamos gramática porque um conhecimento da estrutura das sentenças auxilia na interpretação da literatura; porque lidar continuamente com frases faz com que o estudante forme melhores frases nas suas  redações; e porque a gramática é o melhor assunto no nosso currículo para o desenvolvimento do poder de raciocínio.”

O texto do gramático Webster reflete a centralidade que a gramática tem para a formação de qualquer aluno e como é preocupante a falta que ela faz no currículo das escolas e dos cursos de Letras, que progressivamente tendem a reduzir esse conhecimento, de forma a dar espaço a disciplinas que reproduzem modismos, sem contar, no casos destes, nas inúmeras horas-aula destinadas a atividades complementares, extensão, etc., fazendo com que seja hoje difícil que alguém se forme em Letras em 5 anos.

Deixo para reflexões futuras a questão do raciocínio e do lugar da norma no ensino de gramática. Desejo a todos os leitoras e leitores um feliz 2019!

Que política de C&T e Inovação para o Brasil, hoje?

Recentemente li neste link enviado por um amigo um artigo que expressa uma preocupação que já vinha comigo. Portanto resolvi escrever um breve post, mesmo que o tempo esteja curto esta semana.

Ora, vivemos na época em que os planos de governo são pacotes apaga-fogo. Poucas coisas são pensadas com calma, e mudadas simplesmente porque os dirigentes da área em questão percebem que algo vai errado com o sistema. No caso, estou pensando no setor de ciência e tecnologia.
dianacionaldaciencia

 

O governo Dilma não teve muitas novas políticas nessa área, dando continuidade em geral ao que já vinha sendo proposto no governo Lula. A diferença foi a criação do Ciência sem Fronteiras, e depois do Inglês sem Fronteiras. Ambos os programas saíram do papel muito rápido, e priorizaram a internacionalização sobretudo no nível da graduação. Não vou entrar no mérito de analisar tais programas, mas não é só minha a sensação de que muitos alunos foram beneficiados sem uma contrapartida clara, gerando gastos frequentemente com pouco retorno para a ciência.

Voltemos à tônica petista para a área de C&T e Inovação. Não foram poucos os projetos: aumento de vagas nas universidades públicas, criação de novas universidades, aparelhamento da área de avaliação da CAPES por meio de uma série de indicadores, vinculados à avaliação do CV Lattes, disponibilizado pelo CNPq. Entre os critérios impostos pela CAPES aos programas de pós-graduação, há uma número mínimo e máximo de orientandos por orientador, número mínimo de publicações Qualis A no triênio, controle negativo de alunos que desistem ou não terminam os cursos de pós-graduação…

Por outro lado, temos um sistema de entrada na carreira acadêmica por concursos públicos, que são pensados na ótica da burocracia: prova escrita, didática, análise de currículo, às vezes entrevista. Nisso tudo, o fato de que o candidato X tenha doutorado entra como uma mera exigência do edital. Edital esse que muitas vezes exige também graduação ou mestrado na mesma área do concurso (por mero ranço retrógrado ou proteção de classe)…

Dá pra imaginar o que tal sistema gera? Muitas coisas, mas entre elas sobressaltam a ineficiência e a má qualidade. Muitos alunos que entram nos cursos de pós (que querem se manter como pólos de atração e formação de pessoal), saem muitas vezes com teses pouco relevantes. Muitos deles, sem perfil acadêmico para proceder a pesquisas científicas, desistem da carreira e vão se dedicar a outra atividade (cf. o artigo linkado). Gostaria de enfocar outra consequência. Outros se tornarão professores porém, tendo por parte de certas universidade cobrança muito maior no ensino e tendo pouco interesse e pouca infraestrutura de pesquisa, não ajudarão a dar um salto de qualidade na C&T e Inovação do país. Em ambos os casos, houve muito dinheiro investido e pouco retorno.

Em suma: é preciso pensar uma política de C&T e Inovação que valorize a qualidade. É preciso mudar a forma de avaliar, a forma de cobrar, a maneira como se escolhem os profissionais. Isso inclui:

  • diminuir a entrada de alunos na pós, por meio da inclusão de exigências  que reflitam principalmente o potencial do aluno como possível profissional da área;
  •  diminuir a quantidade de alunos por orientador;
  • incluir critérios de qualidade nas avaliações de publicações científicas, por meio de indicadores como número de acessos, número de citações, entre outros;
  • valorizar também publicações de capítulos de livros e de livros, desde que com indicadores de excelência da casa editorial e especialmente no nível internacional;
  • valorizar as boas teses, e não só por meio de um prêmio de teses, mas sistematicamente, na hora de contratar, na hora de escolher pós-docs, na seleção de projetos para cientistas em momento inicial da carreira;
  • desburocratizar os concursos públicos, diminuindo o peso, no currículo, de atividades didáticas e acadêmicas, que só facilitam a entrada de velhos professores nas vagas das universidades mais consolidadas, e aumento o peso relativo ao perfil de pesquisa e capacidade docente, avaliada por documentos palpáveis e pela prova didática, já existente.

Fazer o bolo crescer de qualquer jeito, sem qualidade, não vale mais a pena, porque ele se torna intragável. É preciso internacionalizar não só para formar profissionais liberais, é preciso internacionalizar na qualidade, no benchmarking, pensando numa excelência global e não meramente tupiniquim, local e idiossincrática.

O museu da língua portuguesa: espaço de divulgação científica ou instrumento ideológico?

Estação_Luz_SP

Era para termos ficado estarrecidos com as imagens do incêndio no Museu da Língua Portuguesa (MLP), ocorrido há um mês, exatamente no dia 21 de dezembro de 2015. A reação não foi muito grande, no fechamento de um ano com tantos dissabores: déficit governamental de mais de 100 bilhões; operações da Polícia Federal mostrando o âmbito do rombo na Petrobras; o dilema do impeachment da Presidente da República; o dilema da cassação do presidente da Câmara dos Deputados; a lama tóxica Rio Doce abaixo (chegando às praias do Espírito Santo e agora, a Abrolhos), só para citar os temas que estiveram mais presentes na mídia.

O MLP tinha relevância simbólica, pois ocupava uma parte do prédio da estação da Luz, uma belíssima estação de trem da segunda metade do século XIX, registro histórico de uma São Paulo florescente e de uma realidade ferroviária que colocava o Brasil no seio da modernidade ocidental. Simbólico porque exaltar a língua portuguesa no Brasil significa exaltar a unidade nacional, apesar de histórias regionais tão dessemelhantes. Ao mesmo tempo, o rótulo “língua portuguesa” apaga nossa distância da antiga metrópole: falamos a mesma língua, não um ‘patois’ ou uma língua misturada.

Antes do incêndio, havia-o visitado por diversas vezes. O grande forte do MLP eram os recursos tecnológicos, telas para todo lado, alguns espaços de interatividade… a visita sempre terminava com um vídeo de alguns minutos, narrado por Fernanda Montenegro, e com um espetáculo de som e luz, com a declamação de poemas. Nesses dois momentos minha sensibilidade vinha à tona, era um convite para sentirme parte da comunidade de falantes do português, mais especialmente, para exaltar minha “brasilidade”.

museu

Finalmente no começo de 2015 visitei-o na companhia de estrangeiros. Foi então que me chamou a atenção o aspecto mais ideológico que informativo do MLP: todo ele era voltado para exaltar a singularidade do português brasileiro. Um aspecto sintomático foi perceber que não havia nenhuma informação (!) em outra língua, nem mesmo em inglês. Ou seja, um dos maiores pontos turísticos da cidade era voltado só para brasileiros… ou acessível só para quem já tivesse um conhecimento razoável da nossa língua.

Isso me faz pensar que, igualmente simbólico foi o incêndio ter ocorrido naquele momento. Não que eu tenha desejado isso. Apesar do tom crítico deste texto, acho a ideia de criação do MLP extremamente positiva. No entanto, quero dizer que às vezes uma catástrofe como essa e como outras que têm ocorrido vem como um convite para repensarmos nossas instituições, para quem sabe podermos reconstruí-las de outra maneira.

Se eu tivesse poder de agir sobre o novo MLP (que deverá ser reformado, provavelmente no mesmo local), mudaria muita coisa. Como não tenho tal poder, opino. Além da informação em outras línguas, criaria um aspecto mais dinâmico, em que houvesse, ao lado de uma exposição temporária sobre literatura, outra sobre língua. Colocaria mais informação sobre o português falado em outras partes do planeta, e em especial o português europeu. Colocaria mais informação sobre aspectos linguísticos que vão além do léxico: morfologia, sintaxe, prosódia, semântica… Incluiria mais informação sobre questões ligadas à CPLP, criaria uma biblioteca e um espaço de convivência. Enfim, daria mais ênfase à ideia de um museu voltado para a divulgação científica sobre a língua portuguesa, em vez de ser um lugar (primordialmente) de afirmação ideológica da nossa identidade comum como brasileiros, como sendo ancorada em torno da língua (que se refletia nos dois enfoques do museu, o histórico e o de variação, ambos no âmbito brasileiro).

Espero realmente que a sociedade participe mais do remodelamento do MLP, e que quando ele seja reaberto, haja novidades e não somente a reprodução fiel do que estava lá.

Pós-escrito: Para redimir um pouco da minha crítica, o sítio do MLP reúne bem mais informações do que reunia o espaço físico do museu. E a boa notícia é que ele continua no ar 😉

 

A cabala do dinheiro

Leitura agradável a desse livro do rabino Nilton Bonder. Não se trata de novidade nas livrarias, nem receita de auto-ajuda de prosperidade, para os mais desavisados. Trata-se de reflexão cabalística (porque do domínio do segredo, ou do que está mais além) que demonstra uma visão positiva do mercado, e como a ética é relevante nos negócios.

cabala

O prefácio de Carlos Minc, ex-ministro do Meio Ambiente, ressalta: “é preciso evitar que, como na Torre de Babel, a atividade econômica se torne um fim em si, produzindo mais do que o necessário e até gerando fome à sua volta”. De fato, nestes tempos de crise econômica, abre-se a reflexão sobre por que ela se instaurou, como reagir a ela, além de uma série de questões éticas. Sobre a causa… Seria advinda da inépcia e corrupção do governo e dos políticos? Do próprio momento do sistema capitalista mundial? Da especulação sem limites? Talvez uma combinação desses fatores? As reações podem incluir: reavaliação de metas, mais controle de gastos, reflexão sobre nossas escolhas pessoais e políticas, etc…

O mais interessante é que a visão religiosa da cabala permite ver a relação entre esse mundo e outros. Seriam quatro as “dimensões da realidade” segundo a visão judaica: “Assiá”, a realidade física; “Ietsirá”, o mundo da formatação, emocional; “Briá”, o mundo da criação, mental; e “Atsilut”, o mundo das emanações, do domínio espiritual. Esses mundos se intercomunicam, e é preciso ter uma visão holística para tanto. É daí que se pode compreender os ciclos de riqueza ou de sorte como elementos de aprendizado nosso sobre esses outros mundos. Passamos por momentos de aflição às vezes para nos reconectarmos com o mundo espiritual, e devemos ter cuidado quando somos agraciados com a prosperidade: “o Senhor te abençoe e te guarde”, pois a “sorte” num mundo tem consequências nos demais.

Critica-se muito o capitalismo, ou melhor, suas vicissitudes, seu aspecto “selvagem”. Esse é o sistema que tira de um para pôr nas mãos de outro, criando riqueza ao lado de antirriqueza. A falta de ética em tais práticas gera momentos de crise, assim como o roubo de tempo, o roubo de riqueza e de expectativa. Uma conduta correta dos entes do mercado gera preços corretos e corrige distorções de tal maneira que todos possam se beneficiar de tais trocas. Afinal, não estamos só falando de dinheiro, mas das nossas vidas. Pois uma vida ordenada financeiramente é uma vida em que há tranquilidade (sem dívidas!), em que abre-se espaço para harmonia, segurança, prosperidade (pensando principalmente em realizações pessoais).

Como ressalta Bonder, o dinheiro é o sinal de confiança (não é à toa as inscrições “In God we trust” “Deus seja louvado” nas notas de dólar, real…) pois trocamos papéis e acreditamos que eles valem algo. E se nas nossas relações interpessoais não temos um nível mínimo de confiança, não há como haver negócio (gesheft). Que possamos ter confiança e fé para seguir na nossa jornada de trocas nesse mundo! Feliz 2016… 😉

Para saber mais:

Nilton Bonder. A cabala do dinheiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2010 [1999].

Trem Noturno para Lisboa

O filme é suíço-alemão, a história, adaptada do livro de Pascal Mercier. Apesar de alguns problemas de montagem, como o fato de todos os personagens falarem inglês, trata-se se uma história que desperta muitos aspectos interessantes, como o conhecimento de outra cultura, e a viagem interior.

Numa história que resgata momentos sórdidos da ditadura salazarista (com a terrível PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, algo correspondente ao DOI-CODI durante a ditadura militar brasileira), o resgate do passado coletivo se mistura com o resgate do passado individual. Um professor que quer participar e reconstruir a vida do autor de um livro encontrado fortuitamente no bolso do casaco de uma moça que quase comete suicídio ao pular de uma ponte em Berna. Um trem que transforma, literalmente da noite para o dia, uma vida rotineira em uma busca apaixonada e sem scripts.

Sabe-se que uma viagem nunca pode ser solução para um problema, mas ela pode servir para descobrirmos mais sobre nós mesmos. O lirismo do novo momento de Raymund Gregorius (Jeremy Irons) se percebe pelo momento em que seus óculos pesados se quebram, e ele tem de trocá-los por outros que, apesar de mais leves, são incômodos de início.

O mais rico é que o raro exemplar do livro mudou a vida, não só da moça que intentara tirar a própria vida, mas do professor, e de outras pessoas, que por meio do resgate de partes dessa história, puderam fazer as pazes com antigos fantasmas, podendo assim dar uma nova razão para seguir em frente.

Nós, que sempre ouvimos e até mesmo repetimos sobre o poder transformador da leitura, podemos ver um claro exemplo nessa adaptação que, se peca no aspecto da montagem, não deixa de ser intrigante e poética. Num estilo bem ao cinema português, o fim é repentino, e misterioso. O que fará o professor? Continuará uma jornada ao sabor do “carpe diem”, em Portugal? Ou reinventará sua própria vida na Suíça? Não se sabe, mas certamente ele não poderá ficar inerte ao que viveu e descobriu naqueles dias.

Dados ao vento

“Ciência transparente”, artigo saído na revista Pesquisa Fapesp deste mês, trata da questão da disponibilização de dados primários das pesquisas. Esse recurso, segundo a revista, vem sendo exigido por várias revistas internacionais, a fim de que uma descoberta possa ser validada: trata-se do princípio da transparência e da reprodutibilidade.

Mais uma vez, as ciências humanas chegam atrasado a essa tendência, que era de fato esperada num quadro de aumento de competitividade numa época de altos investimentos para ciência, tecnologia e inovação. Para quem trabalha com linguística de corpus (grandes conjuntos de textos), como eu, a exigência faz ainda mais sentido, uma vez que os dados e a forma como eles foram trabalhados é crucial para os resultados do trabalho. De fato, já enviei três trabalhos seguindo essa política da trasparência, e espero que essa atitude, ainda pouco difundida, possa levar outros a optarem pela disponibilização de seus dados.

Contra isso, muita gente ainda apresenta uma postura conservadora, de fazer referência limitada aos seus dados. Mas não é só o medo de ter um material “copiado”, e até mesmo utilizado eventualmente contra os resultados a que você chegou, que impede muita gente de fazer isso. Além de tudo, o que está em jogo é o tempo para organizar claramente os critérios de classificação, os grupos de fatores, pois de outra forma algum pequeno erro no seu próprio trabalho de análise pode vir à tona.

A ciência cria novas realidades, nada mais justo que esclarecer cada um dos pedaços
A ciência cria novas realidades, nada mais justo que esclarecer cada um dos pedaços