Memória e sonho por meio da leitura

Uma nova capa de DVD
Reflexões sobre Fahrenheit 451

Todos conhecem pelo menos uma história sobre totalitarismo, dado que essa organização político-social já foi vivida pela maioria dos países, numa época ou noutra. À parte dessas histórias, temos também estórias – sim, essas com “E”, dada sua verossimilhança, mas não veracidade – que levam a extremos as possibilidades da limitação da liberdade em favor da igualdade.
Entre 1945 e 1990 o mundo viveu em bipolaridade. Mais do que a Guerra Fria, muitos cientistas sociais proclamavam a chegada da pós-modernidade. É muito conhecido o livro “1984”, de George Orwell, que depois virou filme preto e branco, sobre uma sociedade em que as pessoas seriam vigiadas pelo “big brother”, ou Grande Irmão. O filme remete ao sentimento de incômodo com os rumos da humanidade que pairava sobre as pessoas, e especialmente sobre os intelectuais e estudantes. O modelo de desenvolvimento proclamado pelo modernismo como solução para os graves problemas econômicos parecia sufocante. Alguns teóricos descreveram que o bem-estar social não era tido como suficiente, se tivesse como consequência a limitação do “humano” que há em nós, em qualquer aspecto: físico, sexual, intelectual ou religioso.
A liberdade de pensamento, cerceada pelo “big brother” – qualquer semelhança com o programa televisivo cognato não é mera coincidência – parece ganhar contornos mais reais no filme ”Fahrenheit 451”, dirigido por François Truffaut. Clássico do cinema europeu gravado em 1966, o filme descreve uma realidade muito mais parecida, em alguns aspectos, com a que vivemos. O título curioso remete à temperatura em que o papel pega fogo. Nessa estória, o protagonista é um bombeiro, numa época em que a função dessa classe não é apagar incêndios, e sim criá-los sobre montes de livros que eram confiscados das pessoas. Ler não era permitido, a TV tornava as pessoas alienadas e os médicos aplicavam sedativos para fazer com que elas cressem em sua felicidade. A humanidade retrocede, e os amantes dos livros tinham de contentar-se em viver isolados e memorizar as obras para servir à função de, um dia, serem os repositórios do conhecimento para as gerações vindouras. O enredo me fez pensar em pelo menos duas coisas.
Primeiro, a importância da leitura e da educação, uma lição que sempre vale a pena repetir em nosso país. Não se tem, na escola da maioria, a abertura para falar o que se pensa. Somos como páginas em branco, que têm que memorizar matérias infindáveis. Lembro-me que era exigida a leitura de um romance por ano, da quinta série (atual sexto ano do ensino fundamental) até o final do ensino médio. Para assegurar a leitura, detalhes do enredo eram cobrados em prova… Imagino que o lado lúdico da leitura nunca surgiu para alguns de meus colegas.
O sonho é a arma que a leitura nos dá. A partir daí, podemos qualquer coisa. O problema de associar os bons alunos com os caras que tiram as melhores notas é que isso tira a criatividade. Criar interesse pelo que se estuda é uma tarefa árdua, um caminho todo individual. É um trabalho com todo o ser humano, não só com uma parte dele. Alguns vão aflorar esse encontro anos depois da escola, graças a uma busca própria, é claro, com doses de apoio da família, de amigos e professores pela vida afora. Pesquisar é aguçar nossos sentidos para a realidade complexa e multidimensional que nos cerca. É ver o corriqueiro com os olhos da surpresa.
O outro aspecto da possibilidade aprofundada no filme “Fahrenheit 451” é a perda da memória: a memória coletiva, de como nossos semelhantes viviam no passado; e a memória individual, que envolve nossos sucessos e também nossos medos,dificuldades e, por que não, fracassos. A felicidade ilusória, a qualquer custo, é um ingrediente conducente à depressão, tão comum atualmente. Viver o hoje sem mexer nos porões internos, e sem vasculhar as consequências futuras de nossas ações é o mesmo que o vazio.
No Brasil ainda sobrevivemos em termos de memória coletiva muito mais pela determinação de algumas pessoas do que pelo apoio governamental. A história do país e da região em que vivemos é muito limitada. Sabemos de alguns eventos, pessoas e datas, mas não imaginamos a vida naquela época e, sobretudo, não nos sentimos parte daqueles eventos. Se nossa auto-estima melhorou porque há mais dinheiro no bolso da maioria, falta o componente espiritual.
A alma do brasileiro, sua voz, sua identidade, não são suficientemente divulgados. Nesse aspecto, fatos recentes e antigos têm o mesmo destino. Por que só neste ano há uma telenovela sobre a ditadura militar, chamada “Amor e Revolução”? Por que não sabemos sobre os nossos indígenas?
No lado pessoal, eu me pus a pensar: Quanto tempo passo em frente à TV, e quanto tempo, lendo? Quantas vezes fui à praia ou ao clube, e quantas vezes fui ao museu ou ao teatro? A conta não é difícil de fazer…

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