Por uma vida melhor

moisés recebendo os mandamentos... de onde vem a norma?

O ensino da norma culta e o retrato da desinformação na educação brasileira

Esta semana mais um burburinho sobre a língua portuguesa saiu na imprensa: um livro de português que ensinaria a falar “errado”! Dos episódios que acompanhei, o livro, cujo nome é Por uma vida melhor, foi alvo de críticas no telejornal Bom Dia Brasil, pelo professor Sérgio Nogueira, adotado pela Rede Globo como um tipo de consultor sobre língua padrão, e por Alexandre Garcia. Neste texto vou apontar as críticas que foram feitas ao texto nessa ocasião, e alguns contra-argumentos e sugestões.
Primeiro, toda a crítica sobre o livro se baseou num pequeno trecho dele, que demonstrava duas possibilidades de concordância nominal: os livros ilustrados, na norma padrão, versus os livro ilustrado, na norma popular. Sabe-se que toda informação fora de contexto pode ser apresentada de forma a distorcer os fatos . Foi isso o que ocorreu, segundo comunicado da organização Ação Educativa. O livro em questão não ensina que qualquer forma de falar é correta, mas que existem normas diferentes no português brasileiro, identifica as diferenças entre elas, e em que contexto cada uma deve ou não ser usada. O capítulo enfocado explora a diferença entre linguagem escrita e falada, contexto que justifica a discussão. Mais importante, o livro é voltado para a educação de jovens e adultos e, portanto, não “confundiria a cabeça das nossas crianças”, como um dos participantes do Bom Dia Brasil sugeriu.
A outra crítica dizia respeito à pretensa inferência de que os autores do livro estariam fazendo “pouco caso da capacidade das crianças aprenderem o português correto’”. Parece-me que é exatamente o contrário: ensinar ao aluno que há várias opções de se comunicar é uma decisão ousada, e baseia-se no pressuposto de que ele é capaz de fazer a transição de uma variedade de língua para outra. Um dos nossos mais eminentes gramáticos, Evanildo Bechara, ilustrou a necessidade dessa abordagem para o ensino da língua materna com a frase “o falante deve ser poliglota em sua própria língua”. (extraído do texto Ensino de gramática. Opressão? Liberdade?). Pois, esse é exatamente o propósito que os linguistas defendem.
Finalmente, a contraposição entre o estudo tradicional da gramática e a orientação da “linguística moderna”, com a preferência pela primeira, segue de um argumento puramente deôntico, imperativo. Para Sérgio Nogueira, as crianças não precisariam aprender o que elas usam naturalmente em casa, ou na internet, e sim algo novo e difícil. Alexandre Garcia, por sua vez, relacionou o aparecimento do livro em questão com a cultura do relaxamento com a aplicação das leis no país. Não é raro que visões como essas sejam temperadas com afirmações como: “Por que perder tempo experimentando novas e mirabolantes abordagens, se antigamente o ensino era tão bom, ensino esse baseado na Gramática Tradicional?” Essa é uma falácia, porque compara a situação da educação brasileira em duas épocas muito diferentes. Antigamente, digamos, nos anos 1950, a educação era privilégio de poucos. A disciplina na sala de aula era obtida por conta de rígidas exigências familiares. A linguística praticamente não existia no país. Porém agora vivemos o desafio de aumentar a qualidade da educação sem deixar ninguém de fora. Além disso, no país já se elabora um pensamento linguístico de alta qualidade.
A preferência pela abordagem tradicional para o ensino da gramática não se sustenta em argumentos racionais, e sim em argumentos de ordem psicológica, fundados no medo. Porque só em português a matéria dada no ensino fundamental é a mesma que a vista no ensino médio e, ainda assim, o rendimento é tão baixo – ou seja, tanta gente sai da escola sem aprender a norma culta?
A resposta é simples: as pessoas não veem nenhuma relação entre o que estudam e sua vida cotidiana. É como ensinar alemão com a naturalidade que um professor de castelhano teria. Na minha visão, para enfrentar o problema, a contextualização das diferenças entre norma popular e norma culta é só o primeiro passo para um ensino de português eficiente e eficaz. O segundo passo é reduzir as horas-aula dedicadas ao ensino de gramática, e aumentar as atividades comunicativas: de leitura, escrita e apresentação oral, especialmente no ensino fundamental. Em suma, colocar maior ênfase no letramento, a partir do qual as regras seguirão imediatamente. Só no ensino médio é que um ensino sistemático de regras gramaticais seria feito. Em terceiro lugar, uma aproximação entre a norma padrão e a norma culta brasileira tem de ser efetuada.
A proposta não tem sido levada com seriedade, mesmo no meio acadêmico. O problema é que a percepção sociolinguística sobre a existência de muitas normas seria vista por muitos como mais condizente com a realidade linguística do país. No entanto, o fato é que o problema do aprendizado do português se complexifica ao percebermos que as gramáticas ensinam fatos linguísticos de épocas passadas da língua:
o paradigma pronominal: não mais se usa vós, e o uso de tu é restrito, e quase sempre acompanha o verbo na 3ª. pessoa. Necessário seria alterar o paradigma do português brasileiro substituindo esses pronomes por você e vocês.
a colocação de pronomes clíticos: no Brasil, as regras de colocação são totalmente diferentes das encontradas em Portugal, no entanto ainda aprendemos na escola as regras que vigoram no falar europeu, mais parecido ao que se encontrava nos textos ditos “clássicos” (do período renascentista). A presença dos ditos “elementos proclisadores” não tem importância, pois é natural para nós dizer a professora me viu ou todos os professores me viram. Em Portugal, a primeira sentença teria de apresentar o pronome necessariamente enclítico, devido à ausência de quantificador: a professora viu-me. Necessário seria fixar a próclise como regra geral no português brasileiro, exceto para os clíticos de 3ª. pessoa (o/s, a/s, se).
O fundador da linguística no Brasil, Joaquim Mattoso Câmara Jr., defendeu, no seu livro Problemas de linguística descritiva, a alteração aqui sugerida na norma padrão do português brasileiro. Disse o estudioso:

… a codificação [da língua padrão] … tem de partir dos resultados obtidos pela linguística descritiva, com uma técnica de pesquisa e interpretação objetiva e rigorosa, para não operar viciosamente no vazio, fora de qualquer uso real.

A isso o autor acrescenta, ainda na pág. 10:

à falta de dados certos e objetivos acresce a falta de diretrizes seguras de interpretação…. não é raro tumultuar-se a regulamentação com considerações de ordem histórica, que são aí fora de propósito… talvez mais perturbadora ainda tenha sido a indistinção entre uso falado e uso escrito, com a atenção toda voltada para este, e o fato de não reconhecer naquele a possibilidade de ‘registros’ diversos, conforme a situação concreta que se depara ao falante.

A visão da linguística descritiva é soberana, pois não faz juízos de valor da língua com base na condição do falante. Os livro ilustrado é exatamente o que se manifesta em francês, língua em que os ‘s’ finais não são pronunciados. Em les livres illustrés, só o artigo tem uma forma que difere entre singular e plural (o ‘e’ de le no masculino singular tem uma pronúncia com a boca arredondada, diferentemente de les). No entanto, em francês, quando o plural é irregular, como em le cheval/ les chevaux (‘o cavalo’/ ‘os cavalos’), a pronúncia do nome no plural é realizada. Ainda nesse caso, a concordância nominal no português brasileiro se assemelha àquela do francês: o feijão/ os feijões é a opção mais encontrada, mesmo na norma popular, já que a forma irregular tem de ser aprendida caso a caso. Essa comparação com uma língua “chique” seria inimaginável para aqueles que consideram o português popular como sinal de ignorância e limitação. É claro que no português brasileiro culto a concordância ocorre, o que justificaria a manutenção do ensino da regra de concordância nominal no caso de uma revisão da língua padrão.
Finalmente, a aproximação da língua padrão à norma culta tem um argumento baseado no estudo do direito. Sabe-se que uma lei pode ou não ter eficácia ou, na linguagem popular, que ela pode “pegar” ou não. Ora, uma lei que “pega” está baseada na realidade e necessidade da comunidade. Uma lei que pune as pessoas de bem e libera os que têm má-fé não é eficaz. Da mesma forma, uma língua padrão que não tem nada a ver com o que falamos (ou pelo menos com o que uma parte dos brasileiros efetivamente fala) só pode ser ignorada. Aprender uma língua como essa língua não compensa.
Infelizmente os linguistas têm pouco reconhecimento no país, o que perpetua a guerra improdutiva entre “gramática tradicional e linguística moderna”, e dificulta a efetivação de mudanças mais ousadas – e necessárias – no ensino de português. Pelo visto, o Brasil continuará sendo um país em conflito de identidade com sua própria língua, um reino tomado por gramáticos arcaicos e absolutistas, proclamando regras advindas do céu, sem conexão com a realidade ao nosso redor. Tal como na imagem de Moisés recebendo os dez mandamentos, as regras continuarão misteriosas, e as exceções, mais ainda. Não seguir as regras, em toda e qualquer circunstância, é visto como sinal de incapacidade para o povo, e de rebeldia para os escolarizados.
Vamos lutar por uma vida melhor e desmistificar o discurso da Rede Globo e entidades afiliadas que, se fossem mesmo defensoras da educação, ofereceriam mais programas inteligentes à população em vez de transmitir inverdades e incitar discussões infrutíferas como esta!
Leia o capítulo 1 do livro Por uma vida melhor neste link.

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4 comentários em “Por uma vida melhor”

  1. Pegar informações fora de contexto e distorcer tudo é muito comum na imprensa, muito bom alguém verificar o contexto e disseminar a realidade dos fatos, como você fez.
    Acho válido aproximar a linguagem escrita da falada, do que já está sacramentado, mesmo dentre os que tiveram oportunidade de estudar o Português, como no caso da colocação pronominal.
    Mas a citação do autor na minha opinião não foi muito feliz. O caso de “os livro ilustrado” como língua falada no Brasil vale para pregar o respeito aos que falam dessa maneira. Agora, dizer que podemos falar “Os livro”, “Os menino pega o peixe”, dependendo da situação, e que devemos dominar as duas formas de falar, acho inapropriado. Na minha humilde opinião, para adequar nossa linguagem quando estamos falando com pessoas mais humildes ou menos letradas não é necessário mudar a concordância nominal, pois isso não deturpa o entendimento, por mais que o outro fale diferente. Acho suficiente utilizar termos mais simples, sendo sensível ao contexto social do receptor.
    Dizer também que “Na variedade popular, basta que esse primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente”, em “os livro ilustrado”, não concordo. Se o verbo for usado no singular, como uma parte da população fala, dependendo do contexto, pode confundir o receptor: trata-se de um ou vários livros?
    Um abraço,

    1. Sim, ninguém é obrigado a adequar a linguagem à de outra pessoa, porém o que se nota é que isto ocorre no dia-a-dia, pelos falantes, e depende de fatores emocionais vários… estar à vontade e ter empatia com quem estamos conversando são aspectos importantes nesse processo. Um exemplo é que, quando vamos a uma outra região no Brasil, muitas vezes diminuímos traços mais fortes no nosso sotaque: em Campinas, me vi por vezes usando um R “caipira” de leve, até mesmo como uma forma de ser compreendido, mesmo não sendo esse um traço muito bem quisto.
      Ainda assim, penso que mais uma vez o livro só deixa claro que existe essa opção. Não penso que há uma apologia à fala sem a concordância.
      O não-entendimento do traço de plural só ocorrerá se a pessoa não tiver a gramática sem a concordância verbal funcionando em sua cabeça. No meu caso, eu não falo “eles vai” (mas falo “os livro”, as vezes), mesmo se eu estiver muito à vontade. Portanto, pode haver uma dificultade de acomodação mesmo, mas talvez ela seja momentânea…

  2. Aroldo,
    Gostei muito do texto por ser bem amplo, tratando o assunto de uma forma mais científica e sem um viés ideológico como geralmente aparece na imprensa. Particularmente, gostei muito da parte que trata da questão dos pronomes. Digo isso, porque atualmente morando nos EUA me deparo com diversas pessoas tentando aprender português e, na maioria das vezes, tendo aulas com pessoas de origem hispânica que possuem o português como segunda ou terceira lingua. As dúvidas à respeito do uso dos pronomes “tú” e “vós” são recorrentes e as diferenças entre o português brasileiro que se fala informalmente e a linguagem culta normalmente não são apresentadas adequadamente gerando grandes confusões. Claro que esse problema está relacionado também com a bibliografia utilizada nos cursos (mesmo problema tratado no seu brilhante texto).
    Sofremos esse mesmo tipo de problema quando estudamos inglês ou qualquer outra lingua no Brasil. Os livros e os métodos de ensino são demasiadamente dedicados às normas gramaticais e as importantes diferenças da norma culta e o dia-a-dia não são ensinadas adequadamente e muitas vezes nos deparamos com pessoas que estudam anos uma outra lingua e ainda sim têm dificuldades em se comunicar.
    Parabéns pelo seu excelente texto e abraço,
    Luiz Otávio

    1. Oi Luiz, obrigado pelo comentário!
      Você tocou noutro ponto importante, que é a interferência entre linguas e dialetos. Isso pode causar mudança linguistica.
      Vou tratar disso em outro arquivo… um abraço!

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