As polêmicas de que o brasileiro tanto gosta… agora sobre as origens do português brasileiro

Tratei, em arquivo postado anteriormente, da controvérsia sobre o ensino da língua portuguesa no Brasil. Outro tema relacionado diz respeito à chamada “questão da língua”: ou seja, o que é o português brasileiro?

O português brasileiro é uma variedade do português falada no Brasil. Para alguns, já é uma língua diferente, com base em contrastes como os que aparecem abaixo. As frases “a” em [1] e [2] são típicas do Brasil, e não usualmente encontradas em Portugal:

[1] a. Você sabe quem ganhou o jogo de ontem?
b. Sabes quem ganhou o jogo de ontem?

[2] a. Eu vi o homem que você falou […] / [com ele].
b. Eu vi o homem com quem você falou.

Esses são só dois exemplos que demonstram como as operações que nossa mente tem de processar são diferentes num e noutro lado do Atlântico. Independentemente de considerar se são dialetos, variedades ou línguas, o português brasileiro e o português europeu têm claramente uma origem comum e um conjunto de diferenças. De onde vêm essas diferenças é um ponto de grande discórdia entre os linguistas. Por que, e até que ponto essa polêmica tem sentido, são questões que quero abordar rapidamente neste arquivo.

A abordagem tradicional da filologia e da lingüística até os anos 1970 para a questão relaciona o surgimento desse novo tipo de língua com uma situação de intenso contato translinguístico que teria ocorrido durante a formação do nosso país. Alguns chegaram a dizer que teria ocorrido o surgimento de uma “língua crioula”. Calma, não se trata de língua de negros, se bem que haja alguma relação, no nosso caso. Imagine uma situação excepcional de comunicação, por exemplo, de contato mercantil entre povos que falam línguas muito diferentes, como os ingleses na costa dos mares do Sul… Ingleses e nativos vão utilizar palavras soltas, sem muitas estruturas complexas, e normalmente aqueles em situação social “dominante” vão “impor” seu léxico. Temos, nesse estágio, um “pidgin”. Quando o pidgin já está mais sedimentado e se torna língua materna de alguns falantes, tem-se o caso de uma língua crioula. Exemplos de crioulos são o Tok Pisin, falado na Papua Nova Guiné, e o crioulo do Haiti.

Pois bem, como se deu a história linguística do Brasil? Sabe-se que até o século XVIII o uso do português era restrito, já que a miscigenação inicial entre portugueses e indígenas, além da política de catequese pelos jesuítas, levou ao uso intenso da chamada “língua geral”, que era de fato uma língua tupi mais simplificada, com alguns elementos de português. Além disso, houve uma grande importação de escravos africanos, que falavam diversas línguas. Surpreendentemente, temos hoje uma situação de domínio do português, com pequenas alterações de uma região a outra. Esse português mais simplificado em alguns aspectos teria sido alterado pela força desse contato. Imaginou-se, portanto, que uma língua crioula, ou semelhante, teria surgido, e depois seus traços mais distintos, se atenuado.

Se bem que essa idéia faça bastante sentido, muitos lingüistas têm-na refutado veementemente. O livro Origens do português brasileiro, escrito por Marta Scherre e Anthony Naro, e disponível pela editora Parábola, é um exemplo dessa outra postura. Trata-se de uma coletânea de artigos previamente apresentados em congressos, que apontam para a existência de todos esses traços que identificam o português brasileiro já em Portugal, mas na fala coloquial, de extratos mais humildes da população, como operários, pescadores, entre outros. O argumento dos autores é que há uma força (chamada “deriva” desde o linguista Edward Sapir) que, desde o latim, empurra as línguas românicas no sentido de determinadas simplificações e mudanças. Além disso, outro aspecto muito forte da argumentação é que não teria havido o surgimento no país de um crioulo, mas de um anticrioulo, ou seja, línguas com estrutura do português e léxico africano, como um tipo de código usado para auto-defesa. Além disso, línguas de comunicação já teriam sido usadas pelos portugueses em incursões prévias em outras regiões do planeta, o que levaria à desnecessidade de criação de nova língua para o mesmo fim (confira o sabir, e a língua de preto (sem caráter ofensivo!)).

A polêmica está longe de acabar. No entanto, está claro que optar por uma ou outra visão não deve ser um ato de fé, mas uma decisão embasada em fatos e comprovações. A ideia de “deriva”, se bem que interessante, torna-se misteriosa porque, se bem que haja uma tendência geral à simplificação, há também complexificação, e a direção de mudança não pode ser sempre predeterminada internamente. O livro de Naro & Scherre tem, no entanto, o mérito de renovar o interesse pela questão, e de apontar a relevância de fatores relativos à mudança no próprio português europeu. Aos interessados… uma sugestão de leitura!

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