Português ou Brasileiro?

O título de um livro de Marcos Bagno, professor da UnB e conhecido divulgador de ideias da sociolinguística, refere a uma pergunta pertinente todas as vezes que um brasileiro visita Portugal. Pra já vou contar o final do livro, sem querer tirar-lhe o interesse: segundo Bagno, no Brasil ainda se fala português, um tanto em função da norma; porém, no futuro, certamente haverá uma língua diferente, chamada “brasileiro”. Nos capítulos que desenvolvem o livro, contudo, demonstram-se várias diferenças entre as variedades, que bem poderiam ser usadas para defender que já há uma língua brasileira.

Isso dito, claro está que a questão tem um lado ideológico forte. Diria que está na base de nossa identidade, assim como o debate sobre as “origens” (do Português Brasileiro). O sentimento que se percebe em Portugal tem sido de rejeição à teoria de língua enquanto conjunto de variedades mutuamente inteligíveis. O que se nota, no geral, é uma postura conservadora que prefere ver a língua portuguesa como construto único do país Portugal, e a variedade brasileira já como língua. Daí segue a rejeição da maioria dos portugueses (especialmente dos mais instruídos) ao Acordo Ortográfico de 1990, uma das bandeiras da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Os descontentes com o acordo têm muitos argumentos objetivos, alguns dos quais válidos, a meu ver, mas cuja motivação é sobretudo ideológica. O principal argumento é de que o acordo não consegue impor uma ortografia realmente única, especialmente nas palavras com grupos -ct- e -pt-, em facto/fato, entre outras, daí brincarem com o termo “desacordo”. Nesse aspecto, frisam que “Egito” deveria ter dupla grafia, já que muitos pronunciam o nome desse país árabe como [Egipto], incluindo o “p”. Entremeado com isto, referem que Portugal não deveria se adequar à norma brasileira, e sim, concertar-se com outros países europeus. Em suma, veem o acordo como “invasão cultural” dos tupiniquins em seu idioma pátrio e secular.

Se concordo que Egito e Egipto deveriam ser opções ortográficas em Portugal, há razões objetivas para a engenharia de que os linguistas do Acordo se utilizaram. Aqui, preocuparam-se em manter um diassistema em meio a um sistema com base em uma ortografia de base fonética, no caso dos grupos -ct- e -pt-: assim é a oposição entre fato (=terno) e facto (=fato). A imensa variação, aliás, na pronúncia de tais itens segue de sua origem como palavras de origem culta, reintroduzidas do Latim na época do português dito clássico. Retomar uma grafia “facto” no Brasil seria de alguma forma um retrocesso histórico, e traria uma complicação, em vez de simplificar o sistema.

Do lado brasileiro, o acordo é relevante para explorar nossa identidade linguística. Como em toda realidade pós-colonial, no entanto, essa construção identitária é fluida e tem de ir além da busca de vínculos históricos. Acredito que o Acordo tem um aspecto simbólico para além do econômico. No entanto, os portugueses têm razão em outro aspecto (ou aspeto): precisamos buscar essa identidade, inclusive linguística, não por um sentimento de não pertença ao mundo luso, mas pelo reconhecimento deste e de tantos outros em nosso seio.

O Acordo é bem-vindo no Brasil, e é um convite para que conheçamos mais sobre o português europeu, no lado de lá do Atlântico…

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2 comentários em “Português ou Brasileiro?”

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