Mudar o olhar

O que você vê?
O que você vê?

Ontem estava na biblioteca e percebi que um usuário estava expressando pequenas contorções de júbilo. São aqueles momentos em que o pesquisador percebe que encontrou ‘algo’. Não sei exatamente o que esse rapaz está pesquisando, mas posso fazer uma ideia do que ele sentiu. Depois de meses, talvez anos, se delineia um padrão; uma hipótese se confirma, um tema ganha novo patamar. É uma sensação única que já tive o privilégio de experimentar, em maior ou menor grau.

Num plano maior, a ciência também se contorce e se refaz. Thomas Kuhn, em “A estrutura das revoluções científicas” propõe que em alguns momentos há uma mudança de paradigma. Isso ocorre quando os cientistas encontram ‘anomalias’ que não podem ser explicadas pelo modelo vigente; a ciência entra um estado de crise, até que uma nova forma de ver as coisas seja apresentada. Aí ocorre a chamada ‘revolução científica’.

Kuhn estava pensando sobretudo das chamadas ciências ‘duras’. No caso da física, as leis do movimento sofreram revisões drásticas com Isaac Newton e depois com Albert Einstein. E o que dizer das ciências humanas? Acredito que elas não mudam tão claramente de paradigma, e visões diferentes convivem, em busca de soluções que, às vezes, são complementares.

No caso da linguística, há grande desinformação no Brasil. Fiquei sabendo que num livro didático de uma grande universidade havia a afirmação de que teria havido três paradigmas na ciência linguística: o estruturalismo, o gerativismo, e os ‘estudos do discurso’. Quanta bobagem!

Ninguém hoje se considera estruturalista, porque o estruturalismo de Ferdinand de Saussure evoluiu e na verdade influenciou a todos, de tal forma que aceitar muitos dos seus princípios não é privilégio de uma escola. Acredito que se alcançou sim um novo patamar de debate com o estruturalismo norte-americano, com a inclusão da discussão sobre cognição de forma mais séria. Isso gerou o debate, ainda vivo, entre formalismo e funcionalismo.

No entanto, sustentar esse debate como se fosse uma questão de escolha entre uma visão ou outra é pior forma de encarar a questão. Novas teorias buscam formas de lidar com a forma e com a função de maneira a integrar vários níveis de descrição linguística, inclusive aqueles voltados ao discurso. Ou seja, talvez não se trate de escolher, na imagem ambígua acima, entre um pato ou um coelho, mas de admitir que há as duas coisas… 🙂

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