O museu da língua portuguesa: espaço de divulgação científica ou instrumento ideológico?

Estação_Luz_SP

Era para termos ficado estarrecidos com as imagens do incêndio no Museu da Língua Portuguesa (MLP), ocorrido há um mês, exatamente no dia 21 de dezembro de 2015. A reação não foi muito grande, no fechamento de um ano com tantos dissabores: déficit governamental de mais de 100 bilhões; operações da Polícia Federal mostrando o âmbito do rombo na Petrobras; o dilema do impeachment da Presidente da República; o dilema da cassação do presidente da Câmara dos Deputados; a lama tóxica Rio Doce abaixo (chegando às praias do Espírito Santo e agora, a Abrolhos), só para citar os temas que estiveram mais presentes na mídia.

O MLP tinha relevância simbólica, pois ocupava uma parte do prédio da estação da Luz, uma belíssima estação de trem da segunda metade do século XIX, registro histórico de uma São Paulo florescente e de uma realidade ferroviária que colocava o Brasil no seio da modernidade ocidental. Simbólico porque exaltar a língua portuguesa no Brasil significa exaltar a unidade nacional, apesar de histórias regionais tão dessemelhantes. Ao mesmo tempo, o rótulo “língua portuguesa” apaga nossa distância da antiga metrópole: falamos a mesma língua, não um ‘patois’ ou uma língua misturada.

Antes do incêndio, havia-o visitado por diversas vezes. O grande forte do MLP eram os recursos tecnológicos, telas para todo lado, alguns espaços de interatividade… a visita sempre terminava com um vídeo de alguns minutos, narrado por Fernanda Montenegro, e com um espetáculo de som e luz, com a declamação de poemas. Nesses dois momentos minha sensibilidade vinha à tona, era um convite para sentirme parte da comunidade de falantes do português, mais especialmente, para exaltar minha “brasilidade”.

museu

Finalmente no começo de 2015 visitei-o na companhia de estrangeiros. Foi então que me chamou a atenção o aspecto mais ideológico que informativo do MLP: todo ele era voltado para exaltar a singularidade do português brasileiro. Um aspecto sintomático foi perceber que não havia nenhuma informação (!) em outra língua, nem mesmo em inglês. Ou seja, um dos maiores pontos turísticos da cidade era voltado só para brasileiros… ou acessível só para quem já tivesse um conhecimento razoável da nossa língua.

Isso me faz pensar que, igualmente simbólico foi o incêndio ter ocorrido naquele momento. Não que eu tenha desejado isso. Apesar do tom crítico deste texto, acho a ideia de criação do MLP extremamente positiva. No entanto, quero dizer que às vezes uma catástrofe como essa e como outras que têm ocorrido vem como um convite para repensarmos nossas instituições, para quem sabe podermos reconstruí-las de outra maneira.

Se eu tivesse poder de agir sobre o novo MLP (que deverá ser reformado, provavelmente no mesmo local), mudaria muita coisa. Como não tenho tal poder, opino. Além da informação em outras línguas, criaria um aspecto mais dinâmico, em que houvesse, ao lado de uma exposição temporária sobre literatura, outra sobre língua. Colocaria mais informação sobre o português falado em outras partes do planeta, e em especial o português europeu. Colocaria mais informação sobre aspectos linguísticos que vão além do léxico: morfologia, sintaxe, prosódia, semântica… Incluiria mais informação sobre questões ligadas à CPLP, criaria uma biblioteca e um espaço de convivência. Enfim, daria mais ênfase à ideia de um museu voltado para a divulgação científica sobre a língua portuguesa, em vez de ser um lugar (primordialmente) de afirmação ideológica da nossa identidade comum como brasileiros, como sendo ancorada em torno da língua (que se refletia nos dois enfoques do museu, o histórico e o de variação, ambos no âmbito brasileiro).

Espero realmente que a sociedade participe mais do remodelamento do MLP, e que quando ele seja reaberto, haja novidades e não somente a reprodução fiel do que estava lá.

Pós-escrito: Para redimir um pouco da minha crítica, o sítio do MLP reúne bem mais informações do que reunia o espaço físico do museu. E a boa notícia é que ele continua no ar 😉

 

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2 comentários em “O museu da língua portuguesa: espaço de divulgação científica ou instrumento ideológico?”

  1. Grande parte das suas sugestões são legais, mas o título esta meio estranho………não vejo a ideia de explorar o português do Brasil como uma intervenção ideológica, não vejo nenhum ideologia implícita aí (um pouco de equívoco e incompetência talvez)……….vejo a sua ideologia Eurocentrista quando diz “e em especial o português europeu”…………de todos os continentes com países que tem o português como primeira língua a Europa é o que tem menos falantes……..então porque “especial”?………..por causa da origem da língua? Se você se informar vai ver como a língua portuguesa surge e como ela chega (porque ela veio de algum lugar….) ao que, hoje, é Portugal, depois ver como ela se estabelece e se altera a partir de Camões, como o Galego do norte da Espanha se apropria de parte dela, como em Moçambique ela ganha um ritmo diferente, de como Portugal não se orienta pelos estudos da CPLP………enfim…………não vejo motivo para o “especial” usado por você que não seja uma ideologia Eurocentrista……acho que o museu da língua portuguesa não tinha que ter “especial” de nada (e se tivesse tinha que ser do Brasil, porque ele esta aqui)………ele tinha que ser sobre a Língua Portuguesa, que tem falantes nativos na África, América do Sul e Europa.

    1. Obrigado pelo comentário. O título foi intencional: no filme de 10 minutos que era passado no museu, havia uma ideologia, que é a exploração do português brasileiro como “língua única”, fonte de influências diversas. Apesar de haver uma menção aos outros países e localidades onde o português se implantou, enfatiza-se o lado emocional dessa pertença à língua como matriz identitária nacional. Portanto, para mim, o museu era sobre o português brasileiro, sobretudo. Note-se também que o símbolo do museu era uma série de letras que formavam uma digital. Isso era pensado, assim como o título do filme: “línguaterna”, intertexto com o poema de João Utinam. Concordo que de início o museu não deveria priorizar nenhuma variedade do português, só falei “especialmente o português europeu” porque há mais estudos sobre essa variedade do que sobre outros países da CPLP. Ainda estamos conhecendo, por meio de descrições recentes, as variedades não-nativas do português faladas em Angola e Moçambique… portanto o que se sabe sobre o português do Timor e de outras localidades onde se falam crioulos ao lado do português é ainda menos. Nesses lugares, nota-se que há mais proximidade da pronúncia europeia, porque a aquisição do português é feita normalmente pelas camadas mais escolarizadas da população.

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