Que política de C&T e Inovação para o Brasil, hoje?

Recentemente li neste link enviado por um amigo um artigo que expressa uma preocupação que já vinha comigo. Portanto resolvi escrever um breve post, mesmo que o tempo esteja curto esta semana.

Ora, vivemos na época em que os planos de governo são pacotes apaga-fogo. Poucas coisas são pensadas com calma, e mudadas simplesmente porque os dirigentes da área em questão percebem que algo vai errado com o sistema. No caso, estou pensando no setor de ciência e tecnologia.
dianacionaldaciencia

 

O governo Dilma não teve muitas novas políticas nessa área, dando continuidade em geral ao que já vinha sendo proposto no governo Lula. A diferença foi a criação do Ciência sem Fronteiras, e depois do Inglês sem Fronteiras. Ambos os programas saíram do papel muito rápido, e priorizaram a internacionalização sobretudo no nível da graduação. Não vou entrar no mérito de analisar tais programas, mas não é só minha a sensação de que muitos alunos foram beneficiados sem uma contrapartida clara, gerando gastos frequentemente com pouco retorno para a ciência.

Voltemos à tônica petista para a área de C&T e Inovação. Não foram poucos os projetos: aumento de vagas nas universidades públicas, criação de novas universidades, aparelhamento da área de avaliação da CAPES por meio de uma série de indicadores, vinculados à avaliação do CV Lattes, disponibilizado pelo CNPq. Entre os critérios impostos pela CAPES aos programas de pós-graduação, há uma número mínimo e máximo de orientandos por orientador, número mínimo de publicações Qualis A no triênio, controle negativo de alunos que desistem ou não terminam os cursos de pós-graduação…

Por outro lado, temos um sistema de entrada na carreira acadêmica por concursos públicos, que são pensados na ótica da burocracia: prova escrita, didática, análise de currículo, às vezes entrevista. Nisso tudo, o fato de que o candidato X tenha doutorado entra como uma mera exigência do edital. Edital esse que muitas vezes exige também graduação ou mestrado na mesma área do concurso (por mero ranço retrógrado ou proteção de classe)…

Dá pra imaginar o que tal sistema gera? Muitas coisas, mas entre elas sobressaltam a ineficiência e a má qualidade. Muitos alunos que entram nos cursos de pós (que querem se manter como pólos de atração e formação de pessoal), saem muitas vezes com teses pouco relevantes. Muitos deles, sem perfil acadêmico para proceder a pesquisas científicas, desistem da carreira e vão se dedicar a outra atividade (cf. o artigo linkado). Gostaria de enfocar outra consequência. Outros se tornarão professores porém, tendo por parte de certas universidade cobrança muito maior no ensino e tendo pouco interesse e pouca infraestrutura de pesquisa, não ajudarão a dar um salto de qualidade na C&T e Inovação do país. Em ambos os casos, houve muito dinheiro investido e pouco retorno.

Em suma: é preciso pensar uma política de C&T e Inovação que valorize a qualidade. É preciso mudar a forma de avaliar, a forma de cobrar, a maneira como se escolhem os profissionais. Isso inclui:

  • diminuir a entrada de alunos na pós, por meio da inclusão de exigências  que reflitam principalmente o potencial do aluno como possível profissional da área;
  •  diminuir a quantidade de alunos por orientador;
  • incluir critérios de qualidade nas avaliações de publicações científicas, por meio de indicadores como número de acessos, número de citações, entre outros;
  • valorizar também publicações de capítulos de livros e de livros, desde que com indicadores de excelência da casa editorial e especialmente no nível internacional;
  • valorizar as boas teses, e não só por meio de um prêmio de teses, mas sistematicamente, na hora de contratar, na hora de escolher pós-docs, na seleção de projetos para cientistas em momento inicial da carreira;
  • desburocratizar os concursos públicos, diminuindo o peso, no currículo, de atividades didáticas e acadêmicas, que só facilitam a entrada de velhos professores nas vagas das universidades mais consolidadas, e aumento o peso relativo ao perfil de pesquisa e capacidade docente, avaliada por documentos palpáveis e pela prova didática, já existente.

Fazer o bolo crescer de qualquer jeito, sem qualidade, não vale mais a pena, porque ele se torna intragável. É preciso internacionalizar não só para formar profissionais liberais, é preciso internacionalizar na qualidade, no benchmarking, pensando numa excelência global e não meramente tupiniquim, local e idiossincrática.

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