O lugar do ensino de gramática

Desde os anos de 2000, o debate sobre o lugar do ensino de gramática ficou mais frequente na academia brasileira. Uma análise dos livros lançados pelo mercado editorial brasileiro em linguística demonstrarão isso. No entanto, o fracasso no aprendizado é o mesmo ou mais acirrado do que o que se encontrava antes, nessa área. Isso pode ser observado indiretamente pelo fraco desempenho dos alunos nos testes que avaliam interpretação de textos.

Em parte, o problema advém do papel cada vez mais marginal que a gramática foi tendo nos currículos, tanto no ensino básico quanto no superior. Primeiro, exigiu-se que os exercícios fossem colocados em contexto – a chamada “gramática pelo texto” – e os exercícios descontextualizados, demonizados. Depois essa tendência ganhou mais força com dois modismos – o ensino sobre o preconceito linguístico e o ensino a partir dos gêneros textuais.

Quando falo “modismo”, digo sem um valor pejorativo. Mas essas são mesmo ondas, que dominam o debate no meio acadêmico e que acabam se refletindo dos conteúdos repassados em sala de aula em diversos níveis. Eu realmente não sou contrário a essas tendências, mas sim ao abuso que tem sido feito ao aplicá-las. Abordar questões de preconceito (juntamente com variação e mudança linguística) pode sim ser conteúdo das aulas de língua portuguesa. Tratar dos diversos gêneros textuais também. Mas, não deixando de lado a velha gramática!!

O que ocorre é que os novos métodos pedagógicos têm um apelo que passa pelo prestígio que os professores têm em empregá-los – eles se sentem empoderados em saberem que dominam o que se considera “a crista da onda” da educação em língua materna. Junto com isso, os materiais didáticos progressivamente se pautam por esses métodos e discursos. Finalmente, eles via de regra incluem um passo-a-passo de como elaborar as aulas, o que é exatamente o que qualquer professor quer, de forma a simplificar sua tarefa. Isso, juntamente com a dificuldade que o aprendizado sobre gramática envolve, fez com que ela perdesse progressivamente o espaço que costumava ter.

Parece que a adoção prematura desses modismos também é parte de uma atitude típica dos povos “latinos”, aí incluídos os brasileiros. Gostamos de novidades, ficamos extremamente animados com novas promessas de resolução simples de nossos problemas; porém com isso esquecemos da tradição e que a educação pode e deve buscar novos caminhos, mas sem jogar fora o bebê com a ‘água do banho. Note que a gramática está presente desde sempre nos currículos da tradição ocidental, e quiçá mesmo de escolas no Oriente. Além disso, vale a pena recuperar o pensamento a seguir:

“We study grammar because a knowledge of sentence structure is an aid in the interpretation of literature; because continual dealing with sentences influences the student to form better sentences in his own composition; and because grammar is the best subject in our course of study for the development of reasoning power.”
(William Frank Webster, The Teaching of English Grammar. Houghton, 1905)
Tradução: “Estudamos gramática porque um conhecimento da estrutura das sentenças auxilia na interpretação da literatura; porque lidar continuamente com frases faz com que o estudante forme melhores frases nas suas  redações; e porque a gramática é o melhor assunto no nosso currículo para o desenvolvimento do poder de raciocínio.”

O texto do gramático Webster reflete a centralidade que a gramática tem para a formação de qualquer aluno e como é preocupante a falta que ela faz no currículo das escolas e dos cursos de Letras, que progressivamente tendem a reduzir esse conhecimento, de forma a dar espaço a disciplinas que reproduzem modismos, sem contar, no casos destes, nas inúmeras horas-aula destinadas a atividades complementares, extensão, etc., fazendo com que seja hoje difícil que alguém se forme em Letras em 5 anos.

Deixo para reflexões futuras a questão do raciocínio e do lugar da norma no ensino de gramática. Desejo a todos os leitoras e leitores um feliz 2019!

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2 comentários em “O lugar do ensino de gramática”

  1. Seu texto me faz pensar… Minha escola optou fortemente pelo aprendizado de gramática via práticas intensas de leitura e escrita. Acho que só no segundo ou terceiro ano fui ter um pouco de gramática mais explícita. Do ponto de vista da interpretação de textos, para mim funcionou muito bem. Mas quando penso em alguns colegas de turma e o que vejo (superficialmente) de sua capacidade interpretativa atual, fico na dúvida se o método realmente funcionou ou se eu apenas tinha facilidade natural para isso… Mas essa reflexão também me leva para outro ponto: não haveria um componente cultural aí, para explicar (ao menos em parte) essa queda na habilidade interpretativa? Falo da queda brusca na demanda por práticas de leitura “séria”, isto é, que vão além do famosos e odiosos 140 caracteres do Twitter e quetais. Essa mudança de comportamento da sociedade é tão séria que mesmo os veículos da imprensa viram sua qualidade cair significativamente… Enfim, tenho a sensação de que na era da pós-verdade, a inverteu-se a lógica da interpretação, de modo que ao invés de alcançar o significado de um texto, o leitor apenas impõe a “interpretação” desejada. E nessa dinâmica, a gramática não faz mais diferença alguma.

    1. Sim, no meio disso (na mesma época), tem-se a questão do texto digital, telegráfico. Junto com o texto digital, o pragmatismo embutido nele… Isso tudo dá vazão a outro post. Mas nesse texto eu abstraí dessas questões, e pensei nos reflexos dos movimentos da academia no ensino de LP, que igualmente tiveram um impacto na história toda…

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