Sobre a “invisibilidade” do neofascismo

Os acontecimentos da semana passada envolvendo o Sr. Alvim e o seu vídeo inspirado no regime nazista, seguidos de sua demissão, me trouxeram à tona a questão de como o neofascismo não só gosta de ser discreto, mas precisa disso para sobreviver. A postura de Alvim não é novidade, ela é o próprio centro da ideologia do atual governo. Porém a “ideologia” não pode ser proclamada. A “ingenuidade” de Alvim foi não perceber este funcionamento básico do neofascismo, que o separa claramente dos fascismos tradicionais. Antes de tudo, acusar o outro de “postura ideológica”, sem apresentar a sua, já é parte da invisibilização. É esse, aliás, o conteúdo do primeiro pronunciamento de Regina Duarte, “a viúva Porcina” da cultura, sucessora de Alvim no cargo de carrasca da cultura.

A invisibilidade começa na simbologia. Diferentemente do fascismo e nazismo tradicionais, que tinham seus símbolos próprios, o neofascismo surrupia os símbolos nacionais como se fossem seus. Imagine a seguinte situação: você vai à academia ou ao shopping e se depara com uma pessoa usando a camisa da seleção brasileira. Você não pode interpelá-lo porque usa a camisa do seu país! Nem mesmo clareza de ele/a está usando a camisa pela adesão a tais ideias você tem. O que fazer? Deixar passar. E, por via das dúvidas, mais um fez “campanha” impunemente…

O segundo pilar da invisibilidade é a mentira. Ela suga toda a energia daqueles que são suas vítimas, enquanto os detratores vociferam blasfêmias. Até que a verdade seja restabelecida, inventam outra, e assim por diante. Já se sabe que todas as últimas investidas do governo não foram para “combater a corrupção”, e sim mirando inimigos do regime: as universidades, os artistas… até a investida contra o DPVAT surgiu porque queriam envolver pessoas ligadas ao PSL e ao STF. No âmbito da educação, alguns boatos foram o dito “kit gay”, nunca distribuído em escolas,ainda em época de campanha. E durante o governo, a difamação a professores e estudantes universitários, por meio da divulgação de montagens de fotos, algumas delas retiradas de contexto. Porque digo que a mentira é “invisível”? Elas são transmitidas pelas fake news nas redes sociais; ninguém sabe a fonte da mentira, porém pelo seu impacto emocional elas se propagam com grande rapidez. Se você não está “vacinado” e bem informado, talvez você acredite também e propagará essa mentira, tornando-se parte de um gigantesca rede de desinformação. Depois que a mentira já se espalhou, ela se torna objeto de referência por alguns membros do governo, como o próprio ministro da educação, que apresentam a desinformação como se fato fosse.

O terceiro pilar, feito em conjugação com o anterior, envolve a adoção de medidas administrativas e legais para controlar mais servidores públicos, retirar o financiamento de áreas que não são de “interesse” ao regime, controlar a expressão, impondo a censura às artes. Tudo isso de maneira sorrateira, enquanto a opinião pública “digere” o último ultraje, pronunciamento boçal, sem alarde. No dia 31/12/2019, por exemplo, inúmeras medidas nesse sentido foram promulgadas no âmbito do governo, “no apagar das luzes”, quando estávamos todos pensando na roupa a usar nas festas de réveillon….

O quarto e derradeiro pilar da casa neofascista é a intimidação. Aliás, esta já começa com as fake news e o discurso de ódio. O silenciamento dos opositores também já contribui um pouco mais. Porém alguns pronunciamentos de autoridades dão a pincelada final. A ameaça de reedição de um AI-5, feita várias vezes no ano passado, como um comentário qualquer no meio de uma entrevista, uma “possibilidade”, coloca a opinião pública, em grande porcentagem descontente com o governo (Mais de 30% de avaliação ruim ou péssimo), em estado de entorpecimento e medo.

Porém uma oposição “macia” é a pior estratégia diante do neofascismo.

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