Purismo é ignorância

Porque não se devem copiar soluções de fora

Purismo é ignorância
Há alguns anos, o atual ministro dos Esportes (cargo superimportante em tempos pré-copa), foi autor de um projeto de lei muito debatido nos círculos linguísticos. Seria o correspondente no Brasil de uma “Lei de defesa do idioma”. Entre as ideias “brilhantes” do deputado Aldo Rebelo estavam:
– a imposição de multa a estabelecimentos que utilizassem termos em língua estrangeira;
– um papel ativo da ABL (Academia Brasileira de Letras) para determinar a forma em língua pátria de estrangeirismos em voga.
Há mais tempo ainda, tínhamos a sugestão vinda de algum purista, de usar ludopédio ou bolípodo em vez de futebol… pois é, o corretor automático do meu computador estranha ambas as novidades!
Os puristas do idioma adoram citar casos de países germânicos, em que o uso de termos estrangeiros concorre com palavras “nativas”. A Islândia, que tem uma língua literalmente “congelada” (das mais conservadoras da família germânica), tem de fato uma academia de letras que cria novas formas para os mais modernos aparatos. (ver Purismo linguístico no islandês)
Mesmo em alemão, há fernsehen, que quer dizer “ver longe” e designa “assistir televisão”. O problema é que aí as raízes são próprias do idioma, e não de ancestrais gregos e latinos, como nos compostos do português. Como as pessoas designam futebol? penso em pelada, racha, mas não é o mesmo… Enilde Faulstich recupera no seu livrinho Como ler e entender um texto um artigo de jornal cheio de expressões futebolísticas… que me lembram conteúdos metafóricos, como nessas palavras que acabei de citar: elas remetem a uma característica dos jogadores (com pés “pelados” ou “rachados”). Enfim, isso me lembra uma conversa com uma colega que estagiou em Berlim, que relatou já haverem pesquisas que relacionam um mecanismo de criação de novas palavras diferente para línguas aglutinantes e para línguas flexionais. Assim, nessas últimas, a metáfora é mais comum, daí o uso de estrangeirismos sem tradução, como no português.
Ou seja, os acadêmicos da ABL e o deputado Rebelo estão é adotando, mais uma vez, solução de fora sem olhar para o que acontece no dia-a-dia da língua… (e esses caras é que se dizem revolucionários !?!)

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4 comentários em “Porque não se devem copiar soluções de fora”

    1. Você tem razão… o título foi para chamar a atenção!
      A conclusão implícita deveria ser que a solução de fora, se copiada sem critério, não funciona, é como uma lei que não pega, porque está afastada da realidade local. É claro que muitas soluções podem ser bem aplicadas.
      O ponto é que, além da questão puramente linguística, que nos leva a adotar empréstimos sem alterações, se alguma lei sobre o uso de português devesse ser estabelecida no Brasil, não poderia ser feita nessas bases, com multa e tendo a ABL como conselheira, já que a ABL está mais para uma academia de personalidades do que de conhecedores do idioma… Ou seja, mais uma vez, o papel dos linguistas é desconhecido e não-aproveitado.

  1. “A conclusão implícita deveria ser que a solução de fora, se copiada sem critério, não funciona, é como uma lei que não pega, porque está afastada da realidade local.” – Adorei!!!! Absolutamente aplicável a toda e qualquer decisão política e estratégica para todo e qualquer plano nacional!!

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